segunda-feira, 7 de junho de 2010
Sobre o evangelho que é a negação do ensino de Jesus Cristo
No seio do "Cristianismo" há pessoas que vivem como bem entendem e que, ainda assim, desejam as bênçãos do Evangelho de Cristo Jesus.
Explico:
As pessoas não leem a Palavra - exceto em reuniões da igreja; não conhecem Jesus - exceto como nome poderoso nas bocas dos faladores de Deus; não oram - exceto dando gritos de apoio às orações coletivas; não praticam a Palavra - exceto a palavra do profeta do grupo, ou do pastor; e, de Jesus, nada sabem; pois, de fato, nada Dele experimentam.
Entretanto, as pessoas ficam pensando que o Evangelho que elas nem sabem o que é haverá de abençoá-las em razão de que elas estão sempre no "endereço de Deus": o templo da "igreja".
Assim, vivem como pagãos em nome "de um certo Jesus" que não é Jesus conforme o Evangelho, e, ainda assim, seguem "um evangelho" que não é Evangelho, para, então, depois de um tempo, acharem que o Evangelho não tem poder, posto que acham que já o provaram e de nada adiantou.
Milhões pronunciam o nome de Jesus, mas poucos o conhecem numa relação pessoal.
Não estou sendo radical, e muito menos julgando e/ou querendo ser mais "crente" que outros. O que ora você lê aqui é bíblico: "naquele dia, muitos pronunciarão: Senhor, Senhor! ... Mas poucos serão os conhecidos pelo Filho."
Na realidade, o que vejo são pessoas estudando teologia sem conhecerem a Deus; entregando-se ao ministério sem experiência do amor de Deus em si próprias; brigando pela "igreja" sem amarem o Corpo de Cristo em seu real significado; pregando "a mensagem da visão da igreja" julgando que tem algo a ver com a Palavra de Jesus.
Assim, vão se enganando enquanto enganam!
O final é trágico: vivem sem Deus e ensinam as pessoas a viverem na mesma aridez, sem Deus na vida!
Hoje, o amor à Bíblia como livro mágico acabou com o amor à Palavra como Espírito e Vida!
Não se lê mais a Palavra. As pessoas levam a Bíblia aos "cultos" apenas para figurar na coreografia e na cenografia da reunião — nada mais!
Oração em casa, sozinho, com a porta fechada, e como algo de amor e de intimidade com Deus, quase não há quem pratica!
Enquanto as pessoas não voltarem a ler a Palavra - especialmente o Novo Testamento, jamais crescerão em entendimento e jamais provarão o beneficio do Evangelho como Boa Nova em suas vidas.
Há até os que depois de um tempo julgam que o Evangelho é fracassado em razão da "igreja" estar fracassada.
Para tais pessoas a "igreja" não é apenas a "representante de Deus", mas, também, é o próprio Evangelho!
Que tragédia: um Deus que se faz representar pelo coletivo da doença do "Cristianismo" e que tem na "igreja" a encarnação de um evangelho que é a própria negação do ensino de Jesus!
O que esperar como bem para tal povo?
Se não tiverem o entendimento aberto, o que lhes aguarda é apenas frustração, tristeza e profundo cinismo - isto tentando me sair de dizer que o quê verdadeiramente os espera é o inferno.
Quem puder entender o que aqui digo, receba-o para o seu próprio bem!
E, inteiramente, que passem a seguir Aquele que não é quem dizem que Ele é.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Do desculpar e do perdoar
Verbos aparentemente de significado idêntico ou pelo menos utilizados com igual propósito, desculpar e perdoar, na realidade, representam atitudes bem diferentes.
Desculpar, como a própria etimologia revela, é tirar a culpa de alguém. Desculpar-se é pedir a alguém que lhe tire a culpa. Há muitas maneiras de pedir desculpas, sendo a mais difícil: "Desculpa o meu erro. Espero não fazer isto novamente".
Porém, ainda assim, tenho como fraco o verbo desculpar. Prefiro o perdoar: "Perdoa-me pelo mal que meu erro lhe causou". É frase para poucos; para os bem-aventurados. Os demais tendem somente a esboçar palavras de desculpas, que, por muitas vezes, pioram as coisas.
Bem diferente do desculpar, perdoar não repara, mas renova. Não elimina as aparências, mas restabelece a ligação entre as pessoas. Recupera laços, liberta quem dá e quem recebe. Transforma o não dito em confissão, colocando as ofensas num confronto direto, e por vezes difícil, com a dor provocada e o sofrimento calado.
Uma vez que se pede perdão pelo erro, seria mais fácil se a pessoa aceitasse o pedido imediatamente, mas nem sempre é o que acontece. Portanto, o correto é ser paciente com a espera pela resposta.
Já quem apenas pede desculpas, deveria ao menos ser honesto e dizer a frase conforme está lá, em seu coração, e não como sempre diz:
- Não acho que tenha errado, mas lamento muito que a minha atitude lhe tenha trazido algum dano.
- Não tive a intenção de ofender você, mas, ainda assim, peço desculpas pelo transtorno que involuntariamente causei.
- A sua atitude não me deixou alternativa, senão reagir deste modo. Lamento muito.
- Peço desculpas não pelo que fiz, mas pela forma que fiz; como você sabe, eu estava sob intensa pressão e me excedi.
- Não era esta a minha intenção, mas, se magoei você, queira me desculpar.
- Errei, mas, no meu lugar, qualquer um erraria. Desculpe.
- Desculpe, mas você sabe que eu sou assim.
A lista pode ser interminável, porque, em matéria de auto-engano, não há quem supere o ser humano (rimou!). Todas essas desculpas se resumem a uma frase que não foi dita: "Na verdade, a culpa é sua". O que essas frases, na verdade, pretenderam dizer foi:
- Se eu não errei, mas você se ofendeu, a culpa é sua por ser assim tão sensível e sofrer sem necessidade.
- Se eu não tive a intenção, você deveria se colocar no meu lugar e vir minha boa intenção.
- Se você me forçou a agir como eu agi, é você quem me deve pedir desculpas.
- Se errei apenas na forma, é porque eu estava correto no essencial e você não prestou atenção.
- Se magoei você e você não deveria ficar magoado, você é quem me deve desculpas, por me fazer sentir tão mal.
- Se errei, como qualquer um erraria, não sou pior que ninguém.
- Se minha natureza falou mais alto e explodi, você deveria ser mais compreensivo e menos exigente comigo.
O que fazer diante de pessoas capazes de nos atacar triplamente - nos ofendem, nos culpam e nos fazem ficar mal, acusando-nos de sermos tão cruéis? Manter distância. A distância deve suceder um esforço de diálogo pedagógico, no afã de mostrar a impropriedade ofensiva pedidos de desculpas.
A distância deve ser acompanhada da observação participante e ainda da expectativa honesta de que haverá mudança. No entanto, para alguns, isso não é cristianismo sincero.
Certo é que, só há uma atitude correta a se tomar quando um erro é cometido. E "Perdoa-me" são as palavras certas a se dizer nesta hora. Está claro que perdoar é mais que desculpar, vai muito além de tirar a culpa de alguém.
Em que me baseio para escrever isto tudo? Por meio da morte de seu único filho, Deus nos concedeu perdão - e não desculpas - por todos os nossos pecados. O sacrifício de Jesus na cruz é à maior prova de apagar de erros que qualquer pessoa poderia receber.
Ao se aceitar este sacrifício, com sincero arrependimento pelas iniquidades cometidas, Deus concede perdão e apaga de Sua memória todo e qualquer erro, para sempre.
Agora, o desafio é que se faça o mesmo: perdoar. Você consegue?!
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Feliz Natal!
Passados doze meses de um escrito quanto ao que a humanidade fez com o Natal, hoje, como um homem convertido em Cristo, observo que algumas igrejas têm-se questionado se é necessário comemorar o Natal.
Na verdade, algumas igrejas até eliminaram, de uma forma abrupta, o culto de Natal; outras proíbem até falar do Natal ou alguma coisa parecida. A base que eles têm é a defesa de alguns líderes acerca da intromissão do paganismo nesta festa e comemoração.
Dizem, com razão, que árvores de natal, Papai Noel, presépios, troca de presentes, guirlandas e velas, dentre outros, vieram do paganismo. Também afirmam que, como ninguém sabe a data certa do nascimento de Jesus, então não podemos comemorar esta data.
Agindo assim, a Igreja do Senhor demonstra-se imatura, infantil e sem firmeza na Palavra de Deus. A igreja, às vezes, faz como Jesus falou em Mateus 23-24: "côa um mosquito e engole um camelo", e tem abandonado algumas coisas essenciais e se apropriado de outras completamente prejudiciais à sua vida.
Deixar de comemorar o Natal por estar misturado com algumas coisas do paganismo é como se jogasse a água suja, a banheira e a criança fora.
É verdade que todas as festas consideradas universais foram misturadas com o paganismo, tanto por uma ação de Satanás, como pela cobiça humana de vender e consumir. Mas não podemos deixar de comemorar uma das festas mais significativas à humanidade, que é o nascimento de Jesus Cristo.
Se pensarmos desta maneira, não iremos comemorar nenhuma festa cristã que seja universal como, por exemplo, a Páscoa, que vem como símbolo o coelho, ovo, chocolate etc.
Deixar de comemorar a Páscoa é falta de sensibilidade espiritual e maturidade de saber separar as coisas essenciais das sem significados e sem base.
É preciso falar os verdadeiros significados, tanto do Natal, como da Páscoa ou outra festa qualquer, tirando os símbolos que não tem nada a ver com as respectivas festas - incluindo árvore de natal, Papai Noel, coelho, ovo, chocolate etc. Mas abandoná-las por completo é deixar de mostrar ao mundo o seu verdadeiro significado. É deixar o mundo sem respostas. É tornar-se como sal insípido, que não testemunha a verdade de Deus.
Apesar de ninguém saber o dia certo do nascimento de Jesus Cristo, não implica dizer que não podemos comemorar, pois um dia Jesus Cristo teve de nascer e já que ninguém sabe o dia certo, convenciona-se o dia 25 de dezembro.
Por que se comemorar tantas coisas sem significados, como dia das bruxas e não se comemorar o dia do nascimento de Jesus Cristo?
Deixar de comemorar o Natal porque não sabemos a data certa, é uma ação impensada e não inteligente. Paulo chegou a dizer que se fez de "fraco para ganhar os fracos", que teve de fazer votos para ganhar os judeus.
Que Igreja é esta que em vez de criar uma estratégia para falar do verdadeiro significado, corre disto e enfia-se na caverna, reclamando como Elias: “ninguém sabe a data do nascimento de Jesus, Senhor, por isso não comemoramos o Natal” - adaptação minha, rs.
Quando se evita de comemorar o Natal e ainda se afirma que ninguém sabe a data certa, este comportamento abre margem para questionamentos, como: ora, se nem a igreja sabe o certo, será que Jesus Cristo nasceu mesmo?
O Natal corrobora a historicidade do nascimento de Jesus Cristo, abrindo a mente das pessoas para o episódio como a comemoração do descobrimento do Brasil e outras datas importantes.
Tenho a questão da data como algo tão importante, que Deus pediu ao povo no deserto que comemorasse a Páscoa exatamente por isto: para que eles nunca esquecessem e soubessem da sua historicidade - "esse dia será um memorial que vocês e todos os seus descendentes celebrarão como festa ao Senhor. Celebrem-no como decreto perpétuo" (Êxodo 12.14).
Que entendimento se tem diante disto?! Vê-se claramente que Deus sabia da importância de se ter um dia para comemorar. A igreja quando se escusa disso, está deixando de ter como memorial e assim testificar a sua historicidade.
É como se a própria Igreja não soubesse o verdadeiro sentido do Natal. Alguns poucos podem até dizer de uma forma simplista: é o nascimento de Jesus Cristo, mas não sabem o que isto implica.
Acredito que estes estejam entre os que tiraram o Natal de suas igrejas.
Vale lembrar que o Natal fala da cruz também. É uma oportunidade para se falar da grande razão do nascimento de Jesus Cristo: a salvação das vidas. Tirar esta comemoração é deixar de dar o maior testemunho do Evangelho.
Não foi à toa que os Magos do Oriente vieram por divina revelação para adorar a criança. O que Deus queria fazer era que as pessoas questionassem, pois segundo a Palavra, Jerusalém toda ficou alarmada - Mateus 2.3. Se Deus não quisesse que não houvesse testemunho, não teria deixado que os magos viessem de tão longe e alarmado Jerusalém.
Nota-se que Deus fez questão de manifestar aos pastores por meio dos anjos, os quais "contaram a todos que tinham visto" - Lucas 2.15-18.
Se a Igreja deixar de comemorar o Natal, mais uma vez omite o seu testemunho por causa de sua imaturidade.
É tempo da Igreja se unir e mostrar o verdadeiro valor do Natal e seu significado.
Se houver omissão do testemunho do verdadeiro significado do Natal, a Igreja estará ratificando o testemunho pagão. Isto sim é errado, vergonhoso e pecaminoso; pois onde a Igreja deveria testemunhar, ela fica como tartaruga escondida no seu casco, sem questionar nada, apenas dizendo como papagaio, o que os outros disseram ou pensam.
Portanto, quero terminar este post desejando a todos um Feliz Natal.
domingo, 22 de novembro de 2009
Guia de Resistência
Dogmas:
1. Este é um mundo medíocre. Não se engane: existe uma conspiração para transformar cada um de nós numa pessoa medíocre, ou seja, numa pessoa que se conforma ao mundo.
2. Existiram pessoas não medíocres - não medíocre = contestadoras; a Maior delas foi pregada numa cruz; outras foram maltratadas, perseguidas e desvalorizadas em vida - Vincent Van Gogh, Soren Kierkegaard, Friedrich Nietzsche, Mme. Jeanne Guyon, W. A. Mozart, Fernando Pessoa... Os contestadores - contestadores = não medíocres - bem sucedidos são poucos. O mundo não gosta dos que tentam estar acima dele.
3. Fama não é sinônimo de não mediocridade. Pode ocorrer o contrário. Vide o BBB. A fama pode enganar o não medíocre para que, cedendo à vaidade, se torne medíocre.
4. Contestar não é sinônimo de não mediocridade. Existem aqueles que vestem a capa da contestação e ganham muito dinheiro com isto. Observe a pessoa. O discurso dela pode soar contestador, mas... Enfim: observe. Há exceções, é claro.
Imperativo: Resista.
Recomendações:
1. Leia. Leia muito. Não só o que é fácil. Dê preferência aos escritores que viveram há pelo menos 100 anos antes de você. Os contemporâneos estão próximos demais para uma avaliação justa.
2. Veja filmes. Os antigos, em especial. Muito do que é considerado "inovador" ou "inusitado" já foi feito há 40, 50 anos, ou mais.
3. Visite galerias de arte. Museus. Se não for possível, explore outras possibilidades: livros reproduzindo os grandes pintores; sites... Olhe. Estude. Não tenha pressa. Deixe cada tela falar com você.
4. Seja maluco ou maluca: dance sozinho - ou sozinha.
5. Ouça música, a popular e a erudita. Preste atenção aos instrumentos utilizados, às mudanças de ritmo, às letras - quando houver, claro.
6. "Filosofia" significa, na origem, "amor à sabedoria". Reflita sobre isto. Ética e Estética não são luxos: tomar decisões, comportar-se no vendaval diário, e apreciar a Beleza sob as mais variadas formas, são prioridades.
7. Creia em Jesus Cristo, Filho do Deus Vivo. Para conhecê-Lo, vá à fonte - Bíblia. Como diria C. S. Lewis: "esqueça tudo o que você ouviu. Descubra por si mesmo".
8. Procure outras pessoas que ajudem você e a quem você possa ajudar, para que resistam juntas.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
O orkut e nossa curiosidade sobre o outro
De uns tempos pra cá, ando estudando uma ferramenta da rede social Orkut, que denuncia quem visitou mais recentemente o nosso perfil - e que denuncia a nossa visita, em perfis de outros usuários, também.
Em conclusão, tenho que a idéia da ferramenta espiã é de nos incitar a ir ao perfil do outro. Conhecê-lo. Ante esta idéia, fiquei pensando: por que temos toda essa curiosidade sobre o outro?
Vendo pelo lado positivo, penso que é a ânsia de conhecermos uma pessoa que provoca isso. Afinal, não é outra a razão porque lemos biografias e reportagens sobre este ou aquele indivíduo, assistimos entrevistas com fulano e sicrano.
Vejo como positivo aqui esse desejo de conhecermos, de "desvendarmos" uma pessoa que admiramos ou estimamos - ver os seus outros lados. Aqueles que ela não mostra para nós, por pudor ou por falta de oportunidade, porque o contexto não é compatível, ou - será este o nosso temor secreto, a raiz mais profunda da nossa ânsia? - porque não inspiramos confiança para que ela se revele a nós.
Saber o que ela pensa sobre isto e aquilo. Conhecê-la. Essa vontade pode criar no mundo virtual uma premência ímpar, já que tudo o que tocamos do outro são palavras, e idéias que expressa por meio delas.
Ficamos diante de um texto - na blogosfera é comum - e pensamos: "Quem é esta pessoa?" E, se o texto nos fascina, a pessoa atrás dele passa a nos fascinar também.
Não que isso não acontecesse no passado. A internet apenas deu roupagem nova a fomes/desejos antigos, trazendo a excitante possibilidade do feedback instantâneo.
O extremo oposto é o lado negro. Obsessão com o outro. Ciúme doentio. Desejo de controlar, e de vigiar. Daí, o Estado Policial - não , não vou falar de política. E o fato de alguns sentirem suas vidas tão pobres e desinteressantes que precisam ficar assistindo a vida alheia (BBB e similares).
Pode ser que nem sempre seja assim; pode ser. Conheço pessoas encantadoras que veem (argh!) essas coisas. Uma delas disse-me que assistir pode ser viciante. Possivelmente é. Mas talvez ainda não seja tão perigoso como quando nos viciamos nas pessoas menos distantes, querendo tudo delas, sufocando-as, espionando-as pelos recados dos orkuts da vida com o intuito de brigar, comprovar infidelidades; perseguir como "fãs" - alguém viu o filme O Fã: Obsessão Cega? Pois é.
Julgo que o sentimento de curiosidade, o anseio de conhecer, não é mau em si. A maioria dos nossos sentimentos não o é. Contudo, tem seu aspecto perigoso, sombrio, deturpável.
domingo, 8 de novembro de 2009
Jonas e o Fariseu - e nós cristãos
Jonas foi um profeta que, encarregado por Deus de ir pregar na ímpia cidade de Nínive, fugiu a isto; acabou na barriga de um grande peixe.
Salvo por Deus, Jonas foi para Nínive, pregou a futura destruição da cidade, e esta se arrependeu da sua pecaminosidade - o que muito desagradou a Jonas, que se recusava a ir a Nínive justo por isto.
No grande momento do capítulo 4, Jonas diz a Deus que sabia que isto aconteceria e por esta razão se negava a pregar - pois a cidade se converteria e Deus os perdoaria.
"(...) Pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal", disse Jonas; chegando ao cúmulo de pedir que Deus lhe tirasse a vida.
Sim. Jonas prefere morrer a ver aquele povo pecador perdoado e salvo por Deus.
Absurdo? Chocante?
Na parábola narrada por Jesus em Lucas 18, dois homens vão orar no templo: um, fariseu - seita rigorosíssima do Judaísmo; o outro, publicano - coletor de impostos, classe quase sempre corrupta e em geral desprezada pela gente honesta daquela sociedade.
Enquanto oram, o fariseu gaba-se de suas virtudes diante de Deus; aproveitando para criticar seu companheiro: "pois não sou como esse publicano", disse ele.
O publicano, envergonhado nesse momento em que fala com Deus, nem ergue a cabeça: só suplica por misericórdia para si. Jesus conclui a história dizendo: Digo-lhes que o publicano desceu justificado para a sua casa, e o fariseu, não.
O que há em comum nessas duas histórias - nesses dois personagens, Jonas e o Fariseu?
Jonas era um servo de Deus. Foi rebelde com Ele porque, na sua visão, os ninivitas não mereciam ser salvos - e ele sabia que, arrependendo-se eles, o Deus a quem servia os perdoaria.
O fariseu congratula-se consigo mesmo por ser tão virtuoso. Começa a orar agradecendo a Deus, porém depressa passa ao auto-elogio e à crítica do seu próximo, o publicano.
Nas suas palavras de agradecimento a Deus, o fariseu deixa entrever que sua concepção de Deus é reducionista: ele O vê semelhante a si próprio, valorizando as mesmas coisas e desprezando as mesmas coisas - e pessoas.
Jonas conhece o coração de Deus, por isto sua revolta. O fariseu faz Deus à sua imagem e semelhança.
Qual deles é o pior?
Temos "Jonas" na igreja - cristãos que não querem partilhar o Senhor com os outros; que julgam-se os únicos dignos de Deus - como se o grande mandamento do evangelho não fosse justo o contrário: boas novas para os totalmente indignos.
Temos fariseus também - cristãos que se congratulam por sua frequência aos cultos; por sua fidelidade nos dízimos e ofertas; por sua vida impoluta. Que desprezam o pecador, e que acreditam estar Deus tão contente com eles, fariseus, quanto eles mesmos estão; que acreditam que Deus joga pelas mesmas regras que eles, desprezando outros seres humanos que bem longe se acham da perfeição.
Ao final, resta-me uma última pergunta:
Crente Jonas ou crente fariseu, qual deles você é?
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Da desculpa de que a carne é fraca
Desde criança - e mais ainda após convertido em Cristo, sempre ouvi pessoas e mais pessoas fugindo de seus erros, utilizando-se da risível desculpa de que "a carne é fraca".
Nunca percebi o porquê de se dizer isto. Afinal, que culpa tem a carne das nossas fraquezas?
Fracos somos nós - e mentirosos!
Enfraquecemos quando não sabemos o que queremos. Esta é a verdade!
E o que mais me assusta em tudo isso é que a grande maioria de nós não só se utiliza dessa desculpa, como também a aceita.
Sim... Nós!
Acredito que, quando se sabe o que se quer, não há carne que nos faça cometer erro algum e, melhor analisando, suponho que essa expressão tenha vulgarmente nascido como desculpa para o pecado sexual.
Verdade seja dita: quem, num momento ou noutro, não sentiu uma atração e tentou algo com a colega de trabalho; com a professora; com a vizinha do lado; com a namorada ou mãe do melhor amigo; com a namorada do pai; como a amiga ou namorada do irmão... Isto para os homens; para as mulheres, basta que se mude o gênero...
... Sei lá, aparecem em nossa vida tantas pessoas com "bom aspecto", que acabamos olhando para estas, e pensamos: "eu até comia!" – carne!
Então não temos o direito de sentir atração e tentar algo com o outro, Yuri? Sim. É claro que temos!
Evidentemente, essa parte de nós está sempre viva... Ela é natural; física e cientificamente provada que acontece a todos!
Agora, dizer que a carne é fraca, quando na verdade o que se passa é em outro nível, isto é que não!
Na verdade, dizer que "a carne é fraca" não serve como desculpa para nada de nada!
A carne não se entrega, não se envolve, não se partilha. A carne se come. E enquanto se come, dá prazer - ou não! E depois... Depois levantamos da mesa e vamos embora.
É como ir a um restaurante comer e voltar para casa, perguntar à sua esposa o que se tem para o jantar, e comer novamente. Comer, gostar, adormecer feliz com a última refeição... E nem sequer pensar na refeição do restaurante!
Sim, Yuri, mas e quando há o gostar; o querer... E quando há toque de e no espírito?
Respondo: uma coisa é carne, outra coisa é espírito!
O espírito envolve muita coisa. Ahhhhhhhh, o espírito! O espírito é onde se guarda toda a nossa essência. O nosso ser. As nossas emoções. É o que chamamos de alma. E o pior – que é inteiramente diferente do que se está discutindo aqui, o espírito é onde se guarda as pessoas com quem estamos emocionalmente envolvidos.
Não aceito que me venham dizer que um envolvimento emocional, por exemplo, o querer estar nos braços de outra pessoa; o querer olhar nos olhos do outro; partilhar um por de sol ou um momento de silêncio; o querer tocar levemente nas mãos do outro; o sentir o coração a palpitar durante um abraço; o sentir borboletas no estômago quando os olhares se cruzam, seja carne.
O espírito pressupõe uma entrega verdadeira e honesta do nosso eu! Não há "baralhação" possível a estas duas situações. Não há como baralhar!
Um leva-nos a fazer sexo, outro leva-nos a fazer amor - ainda que não haja sexo!
Obviamente que a entrega de espírito pode nos levar também a entregar o corpo, mas isto é um pormenor que deixa de ter importância. Afinal, quando o espírito for entregue, o corpo também será...
E o que há de mais penoso em tudo isso é quando nos utilizamos dessa expressão para nos desculpar de uma traição. Entendo que nesta situação não se deve pedir desculpas, mas a compreensão. É aceitar... Ou não!
Ora, por favor! Isso não é ter a carne fraca. Isso é ter um compromisso fraco!
Digo convicto que somos nós que mandamos no nosso corpo, portanto podemos perfeitamente controlá-lo! Eu, Yuri Almeida, erro porque eu quero – carne, novamente!
Ante tudo isso, surge-me uma pergunta: o que é que custa mais a perdoar afinal, uma traição de corpo, ou uma traição de espírito?
Outra... Seria um pedido de desculpas de uma traição, sincero? Ou o amor é um sentimento que perdoa a culpa?
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Lobos em pele de cordeiro
Ando pensando a respeito de uma situação que recentemente aconteceu comigo: descobri que pessoas com quem não mantenho contato há certo tempo, andam, por assim dizer, a falar mal de mim pelas costas.
Confesso que estou frustrado. São pessoas pela quais ainda tinha certo respeito, posto que deva parte do que sou hoje à passagem que fiz em tal comunidade.
Na verdade, eu até agradecia pelo crescimento proporcionado. Porém, depois de tal ato, percebo que realmente vivemos num mundo onde muitos são lobos em pele de cordeiro, que é difícil distinguir os bons dos maus.
As coisas não saíram do jeito que elas desejavam. Talvez fosse mais fácil difamar do que aceitar que o outro é diferente, que tem personalidade - pensa e age de forma diferente, que não consegue se submeter muitas vezes às “regras” absurdas que favorecem somente os que tem poder.
Tenho minha fé. Deus é o único que conhece verdadeiramente o meu coração. Eu sei que não tenho o direito de julgá-las. Eu sei...
O fato, porém, é que cansei de hipocrisia.
Cansei de pessoas manipulando pessoas. Gente de boa fé, que muitas vezes vai até aquelas para aliviarem seu sofrimento “espiritual” e os tem por “santos”, “profetas”, “líderes”. Pessoas humildes, simples, que muitas vezes não discernem que nem tudo é o que parece.
Sou o que sou, gostem ou não. Tenho minha fé, já disse!
Não imponho nada a alguém, tampouco sou escravo de uma comunidade manipuladora que usa a parte mais sensível das pessoas para tirar proveito.
Por fim, um recado: em tempo algum tencione que você realmente sabe quem é alguém. As pessoas em todo tempo darão um jeito de te surpreender, seja para o bem, seja para o mal.
sábado, 19 de setembro de 2009
Inteligência Emocional
Perante uma situação de desalento ou desmotivação, temos de ter uma jogada de inteligência emocional. O que é isto, talvez eu não saiba responder por definição, mas por experiência.
Uma jogada de inteligência emocional é conseguir contrariar as nossas emoções com estilo, com nível; de forma a surpreendermo-nos a nós próprios!
É qualquer coisa do gênero; estou tão triste, mas dar uma gargalhada que veio não sei de onde, nem o porquê, nem me apercebi, mas surpreendi-me!
É dar colo à nossa tristeza; embalá-la; adormecê-la.
É mimarmos a nossa pessoa; dar-lhe coisas boas; mandá-la ao ar e fazê-la rir.
Temos que nos mimar nos nossos momentos difíceis; tirar um tempo para nós!
Esta seria uma jogada de inteligência emocional. Damos conta e já estamos a viver novamente; a sorrir, nem que seja do disparate que nós próprios cometemos.
Tiremos um tempo para nós, mas não um tempo infinito que nos leve ao silêncio, ao desalento, a uma sala sem portas nem janelas!
A questão aqui é não desistir de nós; acreditemos que tudo à volta tem uma resolução. Tudo se resolve, mas não podemos ficar a espera que se resolvam sozinhas.
Hoje em dia, desmotivação pode ser considerada um luxo! Só poderia se desmotivar quem tem uma vida, uma alma, um espírito recheado de riquezas, de experiências, de tudo...
Não podemos nos dar ao luxo de ficarmos impávidos e serenos a assistir à nossa autodestruição.
Sim, porque a falta de auto-estima é o inicio do caminho para a nossa dissipação, desintegração, alienação do mundo; quando damos conta já não estamos cá, estamos do outro lado da vida.
E esta é uma luta em que só podemos ganhar porque só dependemos de nós, da nossa táctica, da nossa estratégia, das nossas armas.
... Depende de nossas escolhas.
Não estou a dizer para mudarmos a situação; é mudar a forma como recebemos e vivemos a vida. Isto faz toda a diferença.
Não é deixar passar, não é esquecer, não é deixar andar porque um dia vai passar. Afinal, tudo o que não se resolve continua a ser um problema, que mais tarde ou mais cedo nos assalta o pensamento.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Sobre o querer e o gostar
Ora, aqui estão duas palavras que nunca tinha pensado que me levassem a questionar o seu sentido ou significado.
Ontem, estava a ouvir uma coisa qualquer na televisão; ao que alguém disse: “tenho de ir, pois não gosto de chegar atrasado…”, mas o rapaz nunca que se ia embora, e eu pensei; “não gosta, mas continuando aí, vai chegar atrasado! Se não quisesse chegar atrasado, já tinha se posto a andar!”.
É que não gostar é uma coisa; o não querer é outra! Eu também não gosto de chegar atrasado, mas às vezes…
Agora, quando não quero… Chego na hora agendada!
Deitando-me um pouco; meu pensamento foi andando, andando… E conclui mais ou menos isto que vou tentar transmitir:
O gostar é superficial. Sim, superficial. E tão superficial o é, que deixamo-lo andar conforme o vento, ou a corrente.
É um querer que se sujeita a fatores externos. É um querer que não nos obriga a grandes esforços; não nos faz lutar. É quase indiferente…
É um querer sem ação; fica por ali.
O querer é diferente porque depende da nossa ação. Se quisermos alguma coisa, acabamos por lutar por ela.
O simples fato de termos de lutar por o que queremos, já torna este querer dinâmico; já lhe dá vida, já lhe dá corpo e as coisas acontecem.
Conclui-se que, querer é mais que o gostar... Ou pelo menos tem um peso diferente.
Talvez haja uma tendência de probabilidades de acontecimento...
Senão, reparem nas seguintes frases que usamos vulgarmente no nosso quotidiano:
"gosto de ti" ou "quero-te";
"gosto de mudar de emprego" ou "quero mudar de emprego";
"gosto de gelado de morango" ou "quero gelado de morango";
"não gosto desta comida" ou "não quero esta comida";
"gosto de estar contigo" ou "quero estar contigo".
sábado, 22 de agosto de 2009
A criança que nos habita
Relendo o livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, clareou-me uma questão digna de post: chegamos a adultos sem darmos por isto.
É um processo tão radical, que se torna comparável ao nascimento, em que, ao passar por um canal de luz, passamos de seres não identificados para gente pequenina.
Ainda ontem eu era uma criança, dei um salto por cima de alguma coisa que desconheço, e subitamente olho para mim e sou um adulto!
Alguns de nós fomos adultos à força; então esquecemo-nos da criança que somos. Perdemo-nos dela no percurso da vida; abandonamo-la algures.
Disseram-me que as crianças despertam em nós um sentimento de ternura e proteção que os adultos não despertam. Compreendo. Talvez isto aconteça à pessoas que estejam habituadas a trabalhar com crianças diariamente. Mas e as que não estão? É natural que um adulto desperte em nós este sentimento de ternura, proteção e carinho incondicional?
Eu, quando sinto isto em relação a um adulto é porque me dou conta que dentro deste adulto habita uma criança. Dentro deste adulto há qualquer coisa de frágil e sensível, de pureza e de inocência.
Penso que quando encontramos esta criança dentro dum adulto, há então espaço para sentirmos vontade de o proteger, de o mimar e confortar. E, sem nos apercebermos disto, o nosso abraço conforta esta pessoa; como o abraço de um adulto conforta e protege uma criança.
É indiscutível!
Parece mágico um abraço assim. Não sei se já experimentaram: um adulto que abraça a criança que habita no outro adulto; a criança que nos habita que é abraçada por um adulto; e melhor que tudo, duas crianças que habitam dois adultos que se abraçam perdidas, e se sentem protegidas.
Para experimentar esta sensação, basta encontrar no outro a criança que o habita. Basta encontrar em nós a criança que somos, e mostrá-la sem receio da sua fragilidade e inocência.
As crianças são todas inocentes, não fazem juízos de valor; no seu abraço não há avaliação disto ou daquilo. É apenas um abraço que tranquiliza e dá paz no meio da guerra dos adultos.
E este abraço é tão bom...
O mundo dos adultos é que nos cega, mas elas continuam cá. Eu sei, eu sinto.
Te peço, não perca a tua. Tentarei não perder a minha...
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Da tristeza e outros livros
Eu andava pela rua - chovia - quando me vi pensando na tristeza.
Foi assim: eu estava me lembrando da terrivelmente amada Clarice, e da amizade dela com o Lúcio Cardoso; a quem ela respeitava muito e que parece ter elegido como uma espécie de mentor literário.
A tristeza de Clarice é contagiante. Ela faz parte de um seleto grupo de escritores que fazem da sua dor uma obra de arte; quando em tempo, ei que escrever sobre isto, aqui...
Bom, eu tinha acabado de comprar um volume com duas novelas do Lúcio, lembrando que só li dele Dias Perdidos, que é ótimo, porém triste demais; dei para associar idéias sobre tristeza...
Cardoso escreve muitíssimo bem. Se há defeito na sua escrita, estaria nessa inconfortável, constante tristeza, que atravessa o romance inteiro.
Não é aquela tristeza fácil, de nos fazer chorar rios de lágrimas, aquilo que os críticos chamam - nem sempre com justiça, verdade - "lágrima fácil"; é mais como melancolia - aquela tristeza suave, indefinida, que permanece em nós por muito tempo, quando não passa a residir permanentemente.
Dias Perdidos - o título o denuncia - é triste; terminei a leitura, lembro-me, incomodado; sabia que era bem escrito, mas - vinha o "mas". O "mas" que é protesto contra a tristeza. O protesto pelo que não se quer.
Eu queria ficar só com a parte boa, o fato de que o romance era envolvente, cheio de humanidade; porém mostrou-se impossível separar isto da tristeza: está lá, em cada página, em cada figura humana desenhada pelo autor.
É como se a alma humana e a tristeza andassem tão unidas uma a outra que não se podia distingui-las ou separá-las.
Tentar extrair uma parte; tê-la sem a outra, mutilaria a história: a própria melancolia é uma personagem.
E foi comprando o seu segundo livro - o segundo que pretendo ler - que compreendi que recusar a tristeza da literatura desse escritor era uma maneira de atraiçoá-lo.
Lembrei mais. Lembrei-me de Miranda Grey, a heroína de O Colecionador de Fowles, quando ela diz a certo momento: "recusarmos-nos à tristeza seria atraiçoarmos todos aqueles que estiveram tristes".
É egoísmo; falta de compaixão; cujo significado já revela: ter pesar pela dor alheia. Sentir dor pela dor do outro. Na raiz da palavra há um sentido de 'carregar junto'; pois é isto: carregar a dor do outro = ter compaixão.
O próprio Cristo nos ensina isto, por meio do cristianismo do apóstolo Paulo: "Compartilhai as necessidades dos santos; praticai a hospitalidade... alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram" (Rm. 12.13-15).
Assim, se quero ler Cardoso, ou Bandeira, ou outro "triste" - ler aqui no sentido de ler bem, captando o que de melhor há neles, tenho de aceitar a tristeza; correr o risco de entristecer-me junto; não fazê-lo seria uma espécie de traição; e seria ler mal, ou imperfeitamente.
Além disso, a tristeza pode nos ensinar algumas coisas; que há pessoas que sofrem; que talvez haja algo que possamos fazer - sempre há; e uma delas pode ser apenas - e tão importante - sofrer junto. Sentir a tristeza que não é nossa, mas existe.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
A saudade e a falta que se sente
Sempre ouvi dizer que a palavra saudade não possui equivalente em outras línguas...
Talvez não tenha definição, nem entendimento, daí a dificuldade de tradução.
Para mim, torna-se difícil definir, ou fazer com que entendam o que eu sinto quando digo: "tenho saudades…"
Na verdade, nem eu sei muito bem o que são saudades… Saudades daquele tempo, saudades de alguém que partiu, saudades de alguém que não chega, saudades da comida da avó…
Conseguimos dizer que temos saudades de tudo e mais alguma coisa, inclusive, de cheiros, sabores, paisagens, momentos, toques…
Depois, existem outras palavras, como nostalgia, saudosismo, melancolia, que tem uma carga de saudade, mas é uma sensação de profunda tristeza. Nem sempre sinto esta tristeza; algumas sensações fazem-me rir.
E aquelas saudades que nos perseguem? Aquelas que não queremos sentir, mas sentimos; aquelas que quanto mais queremos esquecer, mais se lembram de nós?! Aquelas saudades irritantes!?
Aquelas que já nem são saudades, são um género de beliscão na carne, são aquelas que parecem um estalo na cara?! ... soco no estômago, como disse a Clarice.
São aquelas saudades que gritam "sinto a tua falta". Aquelas saudades que se entranham em nós; acordamos com elas, deitamo-nos com elas... E ficamos fartos, cheio delas.
Decerto, sentir saudades não é o mesmo que sentir a falta. Sentir a falta de alguém é mais doloroso. Penso.
Sentir a falta dói, deixa marca, acutila a alma, sufoca, desespera, desorienta, rouba-nos o suspiro...
E quando a saudade aparece o momento em que temos oportunidade de matá-la? Creio que nem sempre se conseguem matar as saudades todas.
Fica sempre alguma coisa no peito; nem o abraço mais profundo consegue matar a saudade.
Parecendo que se consegue, é porque afinal não eram saudades - ou eram??
E no meio deste rodopio desentendido do que é a saudade, já não sei se sinto saudades, se sinto a falta… Sei que sinto um vazio que antes não existia em mim.
... Saudades do que ainda não tive; ou como disse a Florbela: "uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… Sei lá de quê!"
Definitivamente, o que não gosto é ter de ser eu a matar as minhas próprias saudades.
Matar saudades que já não fazem sentido, matar saudades que são só minhas.
Destruir saudades, apagar memórias, querer esquecer, é um processo de autodestruição consciente e doloroso, afagado em lágrimas sem sal...
Não há tempo certo para sentir, ou deixar de sentir saudades. Infelizmente não se controla isso. Mas as saudades que são só minhas, ficarão em segredo, ficarão só para mim, ficarão num sufocado silêncio que grita "sinto a tua falta".
E este é um grito mudo, ao ouvido de um surdo, que ainda por cima é cego!
Grito em silêncio, na esperança que eu ainda tenha tacto, e perceba isto durante um abraço...
terça-feira, 23 de junho de 2009
Celibato e Amor
Os medievais defendiam a idéia de que o celibato era um chamado especial, um chamado para estar aberto, "vago" para Deus.
Pelo fato de não se ter casado, a pessoa cristã solteira estaria mais - ou deveria estar mais - dedicada a Deus.
Na Bíblia, 1 Coríntios 7:32b, o apóstolo Paulo explicita-o: quem não é casado cuida as coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor.
Pondo de lado a ênfase medieval, que colocava o celibato num grau superior ao do casamento, a visão do apóstolo parece razoável. Afinal, sem a responsabilidade de marido - ou esposa - e filhos, a pessoa solteira pode, em princípio, se dedicar mais à obra de Deus.
Digo em princípio porque existem cristãos solteiros em condições específicas que impedem ou reduzem a possibilidade de tal dedicação; aqueles que acumulam o encargo de cuidar de pais doentes ou idosos, por exemplo.
Ultimamente ocorreu-me outra maneira de compreender essa passagem bíblica.
Quem não é casado cuida... De como agradar ao Senhor.
Como agradaremos a Deus? Orando mais? Possivelmente. Assumindo funções ou cargos na igreja? A Bíblia diz que uma pessoa é chamada para isso, e capacitada (Romanos 12:6; 1 Coríntios 12:28); embora se diga que o cristão deve buscar dons (1 Coríntios 12:31).
E também é dito que, em funções de grande responsabilidade, convém que o cristão seja casado (1 Timóteo 3:2, 12; Tito 1:6).
Então, é sensato supor que "agradar ao Senhor" nessa passagem referente ao papel dos cristãos solteiros tem de relacionar-se a mais; do que trabalhar na igreja.
Veio à minha cabeça outra possibilidade: a de que agradaremos a Deus fazendo o que Ele nos diz para fazer, com uma abertura maior para fazê-lo do que sendo casados. E o que seria?
Jesus disse-nos: amai-vos uns aos outros. Ele disse que este era o novo mandamento (João 13:34) e o apóstolo João enfatizou-o (1 João 3:11,14,17-18,23; 4:7-21).
É evidente que as pessoas casadas amam; não se trata da capacidade de amar, mas da possibilidade ou abertura para amar: os solteiros podem amar mais. O seu foco terreno - uma só pessoa - não está presente.
O casado tem graus para exercer o dom do amor - marido ou esposa, filhos - e depois os outros. Não é errado que seja assim. Porém a ausência deste foco, deste ponto central - falo de amor a seres humanos - possibilita mais: possibilita amar a muitos, imensamente, ou ilimitadamente.
Possibilita amar a muitos, com os braços bem abertos, sem qualquer receio ou reserva - receio ou reserva que decerto acabariam ocorrendo, em se tratando de uma pessoa casada ou já comprometida.
A idéia, claro, não é nova. O monge Aelred de Rievaulx (século XII) parafraseou João assim: Deus é amizade, e todo aquele que permanece na amizade permanece em Deus (1 João 4:16).
Os perigos nem por isso terminam. Como escreveu C.S. Lewis, o inferno é o único lugar onde estaremos livres dos perigos do amor.
Amar sempre constituirá um perigo, uma ameaça, pois nos expõe ao não-amor, à indiferença, quando não ao ódio. Às vezes, ao amor mais caloroso, vívido, recebemos luvas de pelica e cortesia. É um risco. Acontece. Mas o sentimento, a sensação de vida, de plenitude trazida pelo amor, é sua própria recompensa.
E a não correspondência também nos aproxima de Deus: quando amamos, e não somos amados - ou não tão amados quanto gostaríamos - podemos saber como Deus Se sente, abrindo os braços para um mundo indiferente, para uma igreja com freqüência inóspita e que O trata até com respeito - porém sem paixão.
Para mim tem sido importante recuperar este conceito, do celibato como um chamado para amar mais, já que, como solteiro, venho me deparando com assomos de amor que me parecem suspeitos ou questionáveis, porque não consigo classificá-los.
Não contendo teor sexual, são, ainda assim, perturbadores, até que lembrar-me de Aereld, celibato e amor, chamado, ajudou-me a pôr as coisas em perspectiva: se amo, não faz sentido etiquetar o que sinto numa categoria pré-concebida. Não é importante. O importante é: eu amo.
E posso amar - estar aberto a isso, quer este amor se encaixe nos moldes que já conheço, quer não.
Os corolários dele - a preocupação com a pessoa, as orações por ela, a alegria de encontrá-la, o desejo de que ela realize os próprios sonhos - aí estão.
Amar e amar apenas. Pode ser uma aventura amar assim. Em momentos isolados, na companhia daqueles que me são queridos, vou descobrindo que é.
domingo, 18 de janeiro de 2009
A gente ama?
"Ainda não amava e já gostava de amar".
O verso de Agostinho amplia-se em mim; ganhando ressonância enquanto me pergunto: a gente ama?
A gente ama.
Ama com mão estendida - que não seja súplica; ama com a mão cerrada - os dedos avermelham-se na pressão, na entrega não-entrega que é no fundo.
Ama com fogos de artifício; com pudor silencioso. Ama com o olhar - porém a mão se ergue e toca.
Ama com a boca que não acerta o caminho, bobo-trêmula como é. Ama ‘pensadamente’, racionalmente - amar é decisão, disse-me uma amiga - e ama sem se estar pronto; deixou um momentinho de olhar e está ali, dominou-nos.
A gente ama suspirando e aos gritos. Ama de um amor tão quieto, silente, envergonhado, que precisa de outros nomes e não este: amor.
Ama na maior cara-de-pau, audácia; ousadia onde o ato de amar é já atrevimento inquestionável.
A gente ama de um amor que descobre a alegria: nada de lágrimas, só festa. A gente festeja o amor que se sente.
Ôpa! Espera aí!
Não. Não. Amor não se sente. Amor é cabeça, ou corpo, nada de coração. Amor-sentido seria doído demais.
Você resolve. Você faz; ou resolve e faz. Sentir complica; que o sentir é pai da tristeza.
A gente ama.
Ama de um amor sem nome que teima em não se acomodar dentro de uma das gavetas classificatórias. Amor. Porque está ali. Euforia & riso. Destemor. Porque mudamos e o amor que nos preenche muda em nós, faz o que não fazia. A gente muda. O amor não muda. Pode mudar as suas formas, e não ele mesmo.
Ele é e nós passamos por ele. Ele é farol.
Tirando as mirabolantes curvas exegéticas de 1 Cor 13, uma pergunta feita por Cecília se torna o texto mais bonito sobre o amor; ela pergunta: “que é que amo quando te amo?”.
Se eu amo? Não sei o nome disto. Seja então amor.
sábado, 17 de janeiro de 2009
A cultura do imediatismo e a mediocridade
Em algum ponto do século XX começa a cultura do imediatismo. Nada de investimentos a longo prazo; nada de espera. Queremos isto e aquilo. E queremos agora!
Aliás, talvez não tenha começado aí. Talvez esta cultura esteve sempre presente como parte da nossa natureza caída.
Bom, o certo é que queremos tudo agora. Já!
Vivemos ansiosos; aos pedaços. Não desfrutamos do presente - ansiosos pelo que vai acontecer ou se lamentando pelo que deixou de acontecer.
Na cultura do imediatismo, esquecemos do presente; o imediato quer o que não tem. E quando isso chega, já não basta. Já está se preocupado com o novo.
Um paradoxo bem interessante disto tudo são as compras a prazo. Você compra a prazo para ter o produto naquele momento. Interessante, não?!
E é da cultura do imediatismo que nasce a promiscuidade. Afinal, quem quer investir meses, anos, num relacionamento?
Se não nos satisfaz, trocamos de produto. Simples.
Um parêntese: não endosso casamentos infelizes "para sempre". E não acredito que todo divórcio é errado. Acredito, sim, que é o mal menor em certas situações. Porém deveria ser o último remédio, não o primeiro.
Como cidadãos da cultura imediatista, somos encharcados por ela, envolvidos nela, habituados nela - em suas preferências, decisões, antipatias.
'Compromisso' não é palavra simpática. 'Investimento' só se refere a dinheiro. 'Estudos' tem relação com diplomas e status, não com adquirir conhecimento - posto que conhecimento despenderia tempo.
Onde nos leva isso? Àquilo que o imediatismo traz em seu bojo, o resultado natural da pressa: mediocridade.
Relacionamentos medíocres, arte medíocre, conversas medíocres. Fala-se de doenças, da vida alheia, de 'celebridades', do que se comprou, dos elevadores enguiçados, das filas, da vida alheia de novo.
As conversas com qualidade, os relacionamentos com qualidade - e não só funcionais ou confortáveis - a arte com qualidade, tornam-se artigos de luxo; raros.
Quando aspiramos ir além numa conversa, somos estranhos, esquisitos, malucos, incompreensíveis.
Quando aspiramos ir além num relacionamento, somos complicados, minuciosos, até mesmo chatos.
Quando aspiramos por criar e desfrutar arte superior, ir além do descartável, somos esnobes, excêntricos e ligeiramente desprezíveis.
E o que fazemos? Não nos encaixamos. Resistimos ao molde. E isto nos faz impopulares.
O que me parece trágico em tudo isso é que nem o notamos mais. Imediatistas, desembocamos na mediocridade, acabando insatisfeitos, porém sem o confessarmos.
Talvez, a cultura do imediatismo tenha relação com a tecnologia. Melhor explicando: com o excesso de tudo que temos hoje e que jamais conseguiremos consumir.
Milhões de livros, filmes, discos - muitas vezes gratuítos.
A urgência é apenas em decorrência do excesso. Temos que ler logo, pois há uma fila enorme de livros a nossa espera.
Isto deveria trazer uma paz e não uma guerra interna. Eu por exemplo não leio bons livros, só leio os ótimos. E dentre os ótimos, escolho os que vou mais com a cara.
Há também o fato de que a principal causa dessa eterna insatisfação seja falta de Deus - ou a transcendência desviada, como diria Girard, pois Ele é o permanente nesse turbilhão de coisas passageiras.
Algo está errado. Resta-nos não cedermos. Mas seria possível?
sábado, 1 de novembro de 2008
A construção da linguagem: o poder e os limites da fala
Já conhecimento de todos; a linguagem nunca foi a minha praia. Mas, ultimamente, tenho analisado bastante o poder e os limites da fala. Aonde ela chega e até onde ela pode ir. E, muito mais que isso, a sua capacidade de construção em meio a um mundo pós-moderno tomado por valores volúveis e efêmeros.
É certo que as relações interpessoais, quando consumadas de forma física (partindo de um pressuposto sensorial), também, falam muito. Mas tenho percebido que essa forma de expressão nem sempre diz tudo, e, é exatamente esse dito, que pode vir a se tornar uma poderosa ferramenta de construção de valores em nosso contexto sócio-cultural.
Pensando assim me permiti refletir mais sobre a máxima do "papa" da filosofia da linguagem, Wittgeinstein: "Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo". Até onde refutar ou concordar com a afirmação do pensador?
Em suas Investigações Filosóficas, Wittgeinstein diz que o sujeito tem a capacidade de batizar o seu objeto de acordo com a sensação privada que ele tem do mesmo. Exemplo?! Se digo "eu te amo" à alguém, este meu objeto pode estar recebendo uma informação arbitrária.
Nem mesmo o sujeito pode ter a certeza do que se está falando. Quem disse que o que falo não pode ser nomeado, sei lá, de "quero transar com você"? O sujeito então não teria justificativas ou critérios para legitimar a sua fala, e esta correria um grande risco de não ser verdadeira. Ou não!!!
O melhor vem agora, quando o pensamento é visto às avessas: a forma de amar dita pelo sujeito pode ter uma interpretação única dele, exatamente porque é privada. E ele tem a total liberdade de dizer - ou batizar- o que sente, e da forma dele, ao seu objeto.
Já o objetvo, por sua vez, terá o total entendimento da fala (do mesmo sujeito), porque compreendeu exatamente o que acabou de ser dito. Construiu-se, enfim, uma linguagem (e uma linguagem própria). Interessante, não é?!
Pensando em meu exemplo, acho que é por isso que as pessoas, hoje, tem tanto medo de dizer o que sentem. Temem a significação dessa fala no receptor. (Há quem fale até no peso da responsabilidade daquilo que se diz.).
Pura bobagem!
Se as pessoas bem soubessem o quanto é edificante dizer, da forma mais transparente, o que se tem na mente. Independente da nomenclatura dada a esse sentimento ou objeto (e é exatamente isso o que menos importa), apenas dizer, simplesmente... sem regras, sem medos, sem melindres...
Então, pra quê mesmo se preocupar com isso? Por que achar que é possível ou impossível dar nomes ao que se pensa ao falar de uma sensação privada, se ela já encontra, pois, o seu espaço na linguagem? E vou mais além... Prá quê buscar palavras na razão? Prá quê?
Afinal, por que mesmo estou falando isso tudo?
Pronto, desconstruí!
terça-feira, 15 de abril de 2008
Escritor de palavras
Flerto com as palavras, tal qual a borboleta flerta com as flores. Gosto do jeito como cada palavra se beija, formando sons que insistem em fazer meus sentimentos e sensações dançarem juntos, num baile tão estranho quanto os pedaços de história que se eternizam em papel e tinta.
... Em papel-tinta-monitor-teclado-cabeça-pensamento.
As palavras, quando escritas, servem para perpetuar meus momentos. Elas se abrem em flores, para as já comentadas borboletas. E da combinação de algumas letras, eu vou fazendo uma história; vou fazendo uma vida.
As palavras são o que tenho de mais parecido com aqueles olhos que tenho por dentro, e que me vêem sofrer quanto tento, sofregamente, por na tela fria de meu computador tudo aquilo que eu penso; tudo aquilo que eu quero; tudo aquilo que eu sou.
A Clarice que o diga... Dizer o indizível; traduzir uma festa de emoções, sensações e percepções em palavras.
Ah, a Clarice...
Eu, com as palavras, descrevo gestos e atitudes. Essas me fazem perder o fôlego, tatear e esquecer-se do instante anterior.
É como um querer louco, que me inebria os sentidos, desafiando minha razão. É como um encontro, uma ansiedade esperada, uma explosão de emoções. É a palavra, farfalhando textos, sensações e sentimentos.
Ela adentra meu olhar curioso, saliva em minha boca, e consegue, por um instante, tocar o meu sentido – com meus próprios dedos.
O que eu escrevo me é, sempre, comestível. Cada palavra me é sorvida como um bálsamo; banhado pela luz difusa do fim de tarde, que insiste em invadir minhas mãos e pensamentos.
Sem pedir licença, igualzinho você, leitor.
terça-feira, 16 de janeiro de 2007
Desumano, demasiadamente desumano.
Pensava agora a pouco sobre a existência humana. Mais precisamente sobre a minha existência.
Antes, tinha comigo a imagem da vida como uma epopéia. Possuía crenças, me exigia realizar grandes feitos, onde estaria disposto a sofrer e me sacrificar.
Com o tempo, reparando no mundo que me cerca, na sociedade alienadora, pude perceber que a vida é apenas "uma sala burguesa" onde o cotidiano mais ordinário contenta os seres humanos normais. Mas isso não me contenta!
Sou então 'Dom Quixote'! Necessito do heróico, dos grandes poetas, do belo, do "medíocre", mesmo que isso signifique lutar contra moinhos de ventos.
Desespero-me perante o mundo simples e cômodo de hoje! "Para quem requer música em vez de barulheira, alegria em vez de prazer, alma em vez de dinheiro, trabalho puro em vez de ativação, paixão pura em vez de brincadeira, este mundo lindíssimo não é pátria..." A dor, a contrariedade, todos esses abalos triviais me fazem pensar em...
Não consigo ver-me sem as lentes simplificadoras e deturpadoras do julgamento. É como se houvesse uma multiplicidade de eus e a cada máscara retirada vejo-me aprofundar na solidão e incompreensão; sinto-me afastar do normal, do aceito pela sociedade.
Então eu não sou normal, assim como minhas crenças, idéias e sonhos não são normais. Como conviver com isso? Como conviver com todas essas faces ou como permanecer com uma apenas? Como ser aceito na sociedade? Mas pra quê ser aceito por ela? Condenei tanto o senso-comum das idéias e será que tudo que busco é aceitá-las, integrar-me à elas? Não, isso não! Jamais!
Mas por que essa necessidade de integrar-me ao mundo? Não seria o mundo que deveria integrar-se à mim? Ou ao menos me aceitar, me compreender...
Não sei o que fazer quando me deparo com essa personalidade multifacetada, nem com tantas idéias contraditórias. Talvez a idéia calada pelo pensamento seja uma solução. Ou, quem sabe, a única solução... Pensar na condição humana é algo demasiado difícil.
Muitos pensaram sobre ela: Nietzsche, Goethe, Freud. Mas eles não conseguiram chegar a meras especulações epistemológicas. Pensar no que nos faz humanos. Mas é mais fácil pensar no que nos faz desumanos (gente, gentalha, populacho!).
Ser humano evoca mais. Como perceber a insustentável leveza da condição humana como disse Tolstoi. Nessa insustentável leveza reside nossas mais caras perspectivas, mais estúpidos erros, limitações, angústias e tudo mais que nos torna demasiadamente humanos.
Mas entre esses "atributos" um me incomoda muito. O medo. Medo de deixar de ser humano e me tornar gente.
Essa corja que povoa a sala burguesa. Não quero ser gente ao ponto de pensar essa grade de pensamento tacanha que serve de suporte para a classificação de tudo e de todos; quero sentir meus sentimentos mas não pelos moldes hipócritas, legado do processo civilizatório, não quero fazer o mesmo discurso frouxo que o social erigiu.
Não quero ser forte por mentir; quero ser forte por contar com minha alma, minha cognição. Não! Eu quero verdades, mesmo que axiomáticas, que se sustentem. Tudo que penso é tão real pra mim mas tão anormal pra os outros. Paradoxal e dialético como todo real pode ser, aliás, só pode ser.
Esses movimentos eternos de tantos paradoxos e dialéticas se misturam naquilo que Goethe chamava de turbilhão da modernidade. Porém, nesse turbilhão eu não vou me transformar em gente.
Lembra dessa passagem que Goethe descreve Fausto observando a gente que seguia a procissão do Cristo morto? Toda a sorte de gente que seguia o "útero podre" da sociedade moderna? É encantador.
Nesse movimento desconexo e ilógico onde se misturam pequenezes, frustrações, vazios e ecos tão ordenadores enquanto elementos constituintes e constituidores do senso comum. Paradoxal e dialético não, Imbecial mesmo!!! Como tudo que eu penso.
Será que é isso: culpa da modernidade? Algo exclusivamente dos nossos "dias modernos"? Se for assim, talvez eu encontre refúgio numa outra dimensão, num lugar situado além da aparência e do tempo. E novamente a solução seria o pensamento calado... Estou confuso sim! Tudo bem, tudo bem! Vou parar de ler aquele maldito livro!
quinta-feira, 29 de setembro de 2005
A minha alma pelo conhecimento
A idéia de que o poder e a riqueza em excesso escravizam, tornam o ambicioso um solitário, está nas origens da existência humana, tanto quanto o conceito de matéria e espírito como incompatíveis e opostos. Ante isso, penso que será interessante trazer a idéia da obra que é símbolo da insatisfação e da inconstância humana.
Falo de “Fausto” de J.W. von Goethe. Quanto tomei a leitura de "Fausto", através da obra de Goethe, meu espírito idealista identificou-se com o espírito pré-romântico da visão goethiana. Fausto é o próprio espelho da humanidade inteira.
A obra nos toca por que fala da gente. Há uma relação bastante estreita entre as ambições de Fausto e as nossas. Mesmo que muitos digam que não, todos querem sempre através das mais diversas habilidades sublimar-se à mera condição humana.
A condição de sermos finitos e imperfeitos não nos satisfaz, então tentamos superá-la, imitando o ato divino ao representar ou recriar o mundo e nossa existência. Nem que para isso tenhamos que, como Fausto, negociar a alma.
Fascinante e envolvente, a obra mostra de maneira genial o quanto é do homem querer superar seus limites. A busca pela juventude, poder, sabedoria, as relações entre o humano e o divino.
A conquista de tudo isso através do pacto com o demônio. Mefistófeles, o diabo na obra, simboliza o mistério da existência, a lucidez, a revelação que conduz à sabedoria, um desejo quimérico de eternidade, ainda que o preço a pagar seja o da própria danação. Para mim, como todos nós, Fausto é entediado de si mesmo.Cansado de sua existência, Fausto negocia sua alma mediante a obtenção de um estado de plenitude e satisfação perene.
Fausto representa o homem na sua incessante, angustiada e inatingível busca pelo conhecimento universal e absoluto que a todo o momento nos lembra e nos humilha perante as maravilhas do Universo, mas também sugere em nós a possibilidade de atingí-los ou desvendá-los. Pois, a danação humana não se restringe apenas num castigo superior por infringirmos regras morais, religiosas ou divinas, mas sim, pela conseqüência do livre-arbítrio.
A angustia de Fausto é também nossa angustia, pois ao tentarmos explicar tudo pelos meios que temos, tais como ciência e razão, perdemos o contato com o divino. E por nunca se achar resposta, passa-se a não acreditar mais que se possa realmente entender e, adquirindo esse pensamento, vive-se para o prazer, o poder, o dinheiro.
A grandiosidade dessa obra é fascinante, visualizo nela, o quanto o homem vivencia essa insatisfação consigo mesmo que o faz buscar um sentido, um valor, tornando-se capaz das maiores atrocidades com o próximo e consigo mesmo, negociando o único objeto apreciável para esse tipo de negociação: a alma.


















