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terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Desumano, demasiadamente desumano.

Pensava agora a pouco sobre a existência humana. Mais precisamente sobre a minha existência.

Antes, tinha comigo a imagem da vida como uma epopéia. Possuía crenças, me exigia realizar grandes feitos, onde estaria disposto a sofrer e me sacrificar.

Com o tempo, reparando no mundo que me cerca, na sociedade alienadora, pude perceber que a vida é apenas "uma sala burguesa" onde o cotidiano mais ordinário contenta os seres humanos normais. Mas isso não me contenta!

Sou então 'Dom Quixote'! Necessito do heróico, dos grandes poetas, do belo, do "medíocre", mesmo que isso signifique lutar contra moinhos de ventos.

Desespero-me perante o mundo simples e cômodo de hoje! "Para quem requer música em vez de barulheira, alegria em vez de prazer, alma em vez de dinheiro, trabalho puro em vez de ativação, paixão pura em vez de brincadeira, este mundo lindíssimo não é pátria..." A dor, a contrariedade, todos esses abalos triviais me fazem pensar em...

Não consigo ver-me sem as lentes simplificadoras e deturpadoras do julgamento. É como se houvesse uma multiplicidade de eus e a cada máscara retirada vejo-me aprofundar na solidão e incompreensão; sinto-me afastar do normal, do aceito pela sociedade.

Então eu não sou normal, assim como minhas crenças, idéias e sonhos não são normais. Como conviver com isso? Como conviver com todas essas faces ou como permanecer com uma apenas? Como ser aceito na sociedade? Mas pra quê ser aceito por ela? Condenei tanto o senso-comum das idéias e será que tudo que busco é aceitá-las, integrar-me à elas? Não, isso não! Jamais!

Mas por que essa necessidade de integrar-me ao mundo? Não seria o mundo que deveria integrar-se à mim? Ou ao menos me aceitar, me compreender...

Não sei o que fazer quando me deparo com essa personalidade multifacetada, nem com tantas idéias contraditórias. Talvez a idéia calada pelo pensamento seja uma solução. Ou, quem sabe, a única solução... Pensar na condição humana é algo demasiado difícil.

Muitos pensaram sobre ela: Nietzsche, Goethe, Freud. Mas eles não conseguiram chegar a meras especulações epistemológicas. Pensar no que nos faz humanos. Mas é mais fácil pensar no que nos faz desumanos (gente, gentalha, populacho!).

Ser humano evoca mais. Como perceber a insustentável leveza da condição humana como disse Tolstoi. Nessa insustentável leveza reside nossas mais caras perspectivas, mais estúpidos erros, limitações, angústias e tudo mais que nos torna demasiadamente humanos.

Mas entre esses "atributos" um me incomoda muito. O medo. Medo de deixar de ser humano e me tornar gente.

Essa corja que povoa a sala burguesa. Não quero ser gente ao ponto de pensar essa grade de pensamento tacanha que serve de suporte para a classificação de tudo e de todos; quero sentir meus sentimentos mas não pelos moldes hipócritas, legado do processo civilizatório, não quero fazer o mesmo discurso frouxo que o social erigiu.

Não quero ser forte por mentir; quero ser forte por contar com minha alma, minha cognição. Não! Eu quero verdades, mesmo que axiomáticas, que se sustentem. Tudo que penso é tão real pra mim mas tão anormal pra os outros. Paradoxal e dialético como todo real pode ser, aliás, só pode ser.

Esses movimentos eternos de tantos paradoxos e dialéticas se misturam naquilo que Goethe chamava de turbilhão da modernidade. Porém, nesse turbilhão eu não vou me transformar em gente.

Lembra dessa passagem que Goethe descreve Fausto observando a gente que seguia a procissão do Cristo morto? Toda a sorte de gente que seguia o "útero podre" da sociedade moderna? É encantador.

Nesse movimento desconexo e ilógico onde se misturam pequenezes, frustrações, vazios e ecos tão ordenadores enquanto elementos constituintes e constituidores do senso comum. Paradoxal e dialético não, Imbecial mesmo!!! Como tudo que eu penso.

Será que é isso: culpa da modernidade? Algo exclusivamente dos nossos "dias modernos"? Se for assim, talvez eu encontre refúgio numa outra dimensão, num lugar situado além da aparência e do tempo. E novamente a solução seria o pensamento calado... Estou confuso sim! Tudo bem, tudo bem! Vou parar de ler aquele maldito livro!

5 comentários:

  1. oi,esse texto retrata para mim,a impressão que não estou só em minhas dúvidas de existência,de lutas,de guerras travadas entre meu ser e esse mundo que ás vezes me enoja fazer parte dele..."o pensamento calado",como colocas,as dúvidas...incertezas,o medo...o que fazer com tudo isso?narras muito bem a trajetória de quem se vê no paraíso até sua condição humana despertar no turbilhão de confusão e descrenças de valores do "mundo moderno",aparentemente sem solução...Será a nossa Sociedade,dos Poetas Mortos?

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  2. Oi,sou Luana(filha de Fátima),aluna do segundo grau,3º ano,li através de minha mãe seu texto,polêmico e tive que ir várias vezes ao Aurélio,rsrs.Não tenho conhecimento de certas coisas,mas quando se trata da sociedade de hoje já é diferente,pq são fatos mais claros,mais de minha convivência.Tenho tb minhas dúvidas e questionamentos entre o certo,o que seguir.Segundo minha mãe,devo criar meus próprios padrões de vida e não me importar com os q estão na panelinha.Vc lembrou meu professor de Literatura:Marreiros,gostei d+++.Ah,tenho agora como dever de casa,uma leitura por semana de um texto seu,rsrsrs(coisas de mama).Gostaria de sugerir que vc escreva sobre educação da escola pública,não sei se é sua área,sou aluna da escola que minha mãe dirige,é uma escola pública.Gostei de ler seu texto,apesar de muito difícil para mim,mas chego lá,pois quero conseguir fazer que meu conhecimento seja transparente...tenho dificuldades pq sou tímida.Parabés,poeta...adoro a liberdade de expressão...é isso aí!!!

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  3. Élida Maria Aragão/Charllote May29 de maio de 2007 18:51

    Uma analogia ao “Humano, demasiado Humano”, obra em aforismos, para quem quer entender a evolução do legado nietzscheano.
    Yuri, ou será mesmo Gasparzinho? Rsss...
    Penso que, bons textos e críticas não são os que agradam a “Gregos e Troianos”, mas os que os fazem discutir, guerrear, contestar, pensar, transcender os conceitos do aceitável. Parabéns! Você, nos seus artigos, consegue trazer à tona tais elocuções. Assim, eu não poderia me abster de fazer algumas reputações: o texto aborda seus íntimos paradoxos ( e a Garota Paradoxo não sou eu? Rss..) e os trazem à condição humana, ou não...
    Pascal já dizia: “Os que vivem no desregramento dizem aos que vivem na ordem que são estes que se afastam da natureza, e julgam segui-la: como os que estão num barco julgam que os que estão na margem fogem. A linguagem é semelhante em toda parte. É preciso ter um ponto fixo para julgar. E me faz perguntar o mesmo que ele: “O porto julga os que estão no barco, mas onde conseguir um porto na moral?"
    Se me permite, trago à tona, Lou Andreas-Salomé, exuberante mulher que usufruiu a vida de forma apaixonante, que conquistou corações e mentes com sua beleza estonteante e seu intelecto espetacular, capaz de dialogar com qualquer homem de seu tempo, que propôs a Rée e Nietzsche, viverem juntos sob o mesmo teto como uma "Santíssima Trindade"... Interessante? Então, leia “Humana, demasiada Humana”, da pernambucana Luzilá Gonçalves Ferreira.
    Vejo-me retratada e, sem ser pretenciosa, até digo que sou a própria citação de Salomé: "Ouse, ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!”. Concordo com ela em numero, gênero e grau.
    Diante de tantas indagações, pergunto: que seria do amarelo, se todos gostassem do vermelho?
    Modernidade? Não me deixo alienar por ela, aproveito-a onde me for conveniente. De resto, passo por ela igual cavalo de desfile: cagando, andando, sendo aplaudida e feliz!!

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  4. Oi, como é bom voltarmos a ler um belo texto, a visão agora não bem diferente, mas amadurecida, hoje então que me encontro com o lado "desumano do humano", me vejo só, triste e perdida entre dúvidas do que "ser ou não ser". Te relendo, me proporciono a esperaçã que perdida não estão minhas incertezas,muito menos as verdades que busco. Te relendo, em cada linha, parágrafo, sinto pulsar em mim a ligação que temos ao nos proporcionar a "livre expressão" da verdade. Que venha na sua hora o lobo que há em mim, mas que jamais me deixe abater o cordeiro...Poeta, será morta a vossa, a nossa Sociedade...?Lembras do luar? do mar? das conchas, da areia? lembras da alma? que alma? onde estás que não me escutas, que não me sentes?pq não me vens com ardor e certeza que somos necessários para uma existência pura e verdadeira? Mas afinal, o que é a verdade? è a minha, é a tua? afinal...pq tantos nos tem de tão pouco?è poeta, surges nas linhas escritas e intrigantes e que nos deixam em desarmonia com nosso mais escuro e perdido "eu".

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  5. Quais sao os pontos positivos e negativos do texto?

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