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sábado, 17 de janeiro de 2009

A cultura do imediatismo e a mediocridade

Relógio da vida

Em algum ponto do século XX começa a cultura do imediatismo. Nada de investimentos a longo prazo; nada de espera. Queremos isto e aquilo. E queremos agora!

Aliás, talvez não tenha começado aí. Talvez esta cultura esteve sempre presente como parte da nossa natureza caída.

Bom, o certo é que queremos tudo agora. Já!

Vivemos ansiosos; aos pedaços. Não desfrutamos do presente - ansiosos pelo que vai acontecer ou se lamentando pelo que deixou de acontecer.

Na cultura do imediatismo, esquecemos do presente; o imediato quer o que não tem. E quando isso chega, já não basta. Já está se preocupado com o novo.

Um paradoxo bem interessante disto tudo são as compras a prazo. Você compra a prazo para ter o produto naquele momento. Interessante, não?!

E é da cultura do imediatismo que nasce a promiscuidade. Afinal, quem quer investir meses, anos, num relacionamento?

Se não nos satisfaz, trocamos de produto. Simples.

Um parêntese: não endosso casamentos infelizes "para sempre". E não acredito que todo divórcio é errado. Acredito, sim, que é o mal menor em certas situações. Porém deveria ser o último remédio, não o primeiro.

Como cidadãos da cultura imediatista, somos encharcados por ela, envolvidos nela, habituados nela - em suas preferências, decisões, antipatias.

'Compromisso' não é palavra simpática. 'Investimento' só se refere a dinheiro. 'Estudos' tem relação com diplomas e status, não com adquirir conhecimento - posto que conhecimento despenderia tempo.

Onde nos leva isso? Àquilo que o imediatismo traz em seu bojo, o resultado natural da pressa: mediocridade.

Relacionamentos medíocres, arte medíocre, conversas medíocres. Fala-se de doenças, da vida alheia, de 'celebridades', do que se comprou, dos elevadores enguiçados, das filas, da vida alheia de novo.

As conversas com qualidade, os relacionamentos com qualidade - e não só funcionais ou confortáveis - a arte com qualidade, tornam-se artigos de luxo; raros.

Quando aspiramos ir além numa conversa, somos estranhos, esquisitos, malucos, incompreensíveis.

Quando aspiramos ir além num relacionamento, somos complicados, minuciosos, até mesmo chatos.

Quando aspiramos por criar e desfrutar arte superior, ir além do descartável, somos esnobes, excêntricos e ligeiramente desprezíveis.

E o que fazemos? Não nos encaixamos. Resistimos ao molde. E isto nos faz impopulares.

O que me parece trágico em tudo isso é que nem o notamos mais. Imediatistas, desembocamos na mediocridade, acabando insatisfeitos, porém sem o confessarmos.

Talvez, a cultura do imediatismo tenha relação com a tecnologia. Melhor explicando: com o excesso de tudo que temos hoje e que jamais conseguiremos consumir.

Milhões de livros, filmes, discos - muitas vezes gratuítos.

A urgência é apenas em decorrência do excesso. Temos que ler logo, pois há uma fila enorme de livros a nossa espera.

Isto deveria trazer uma paz e não uma guerra interna. Eu por exemplo não leio bons livros, só leio os ótimos. E dentre os ótimos, escolho os que vou mais com a cara.

Há também o fato de que a principal causa dessa eterna insatisfação seja falta de Deus - ou a transcendência desviada, como diria Girard, pois Ele é o permanente nesse turbilhão de coisas passageiras.

Algo está errado. Resta-nos não cedermos. Mas seria possível?

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