Pensava agora a pouco sobre a existência humana. Mais precisamente sobre a minha existência.
Antes, tinha comigo a imagem da vida como uma epopéia. Possuía crenças, me exigia realizar grandes feitos, onde estaria disposto a sofrer e me sacrificar.
Com o tempo, reparando no mundo que me cerca, na sociedade alienadora, pude perceber que a vida é apenas "uma sala burguesa" onde o cotidiano mais ordinário contenta os seres humanos normais. Mas isso não me contenta!
Sou então 'Dom Quixote'! Necessito do heróico, dos grandes poetas, do belo, do "medíocre", mesmo que isso signifique lutar contra moinhos de ventos.
Desespero-me perante o mundo simples e cômodo de hoje! "Para quem requer música em vez de barulheira, alegria em vez de prazer, alma em vez de dinheiro, trabalho puro em vez de ativação, paixão pura em vez de brincadeira, este mundo lindíssimo não é pátria..." A dor, a contrariedade, todos esses abalos triviais me fazem pensar em...
Não consigo ver-me sem as lentes simplificadoras e deturpadoras do julgamento. É como se houvesse uma multiplicidade de eus e a cada máscara retirada vejo-me aprofundar na solidão e incompreensão; sinto-me afastar do normal, do aceito pela sociedade.
Então eu não sou normal, assim como minhas crenças, idéias e sonhos não são normais. Como conviver com isso? Como conviver com todas essas faces ou como permanecer com uma apenas? Como ser aceito na sociedade? Mas pra quê ser aceito por ela? Condenei tanto o senso-comum das idéias e será que tudo que busco é aceitá-las, integrar-me à elas? Não, isso não! Jamais!
Mas por que essa necessidade de integrar-me ao mundo? Não seria o mundo que deveria integrar-se à mim? Ou ao menos me aceitar, me compreender...
Não sei o que fazer quando me deparo com essa personalidade multifacetada, nem com tantas idéias contraditórias. Talvez a idéia calada pelo pensamento seja uma solução. Ou, quem sabe, a única solução... Pensar na condição humana é algo demasiado difícil.
Muitos pensaram sobre ela: Nietzsche, Goethe, Freud. Mas eles não conseguiram chegar a meras especulações epistemológicas. Pensar no que nos faz humanos. Mas é mais fácil pensar no que nos faz desumanos (gente, gentalha, populacho!).
Ser humano evoca mais. Como perceber a insustentável leveza da condição humana como disse Tolstoi. Nessa insustentável leveza reside nossas mais caras perspectivas, mais estúpidos erros, limitações, angústias e tudo mais que nos torna demasiadamente humanos.
Mas entre esses "atributos" um me incomoda muito. O medo. Medo de deixar de ser humano e me tornar gente.
Essa corja que povoa a sala burguesa. Não quero ser gente ao ponto de pensar essa grade de pensamento tacanha que serve de suporte para a classificação de tudo e de todos; quero sentir meus sentimentos mas não pelos moldes hipócritas, legado do processo civilizatório, não quero fazer o mesmo discurso frouxo que o social erigiu.
Não quero ser forte por mentir; quero ser forte por contar com minha alma, minha cognição. Não! Eu quero verdades, mesmo que axiomáticas, que se sustentem. Tudo que penso é tão real pra mim mas tão anormal pra os outros. Paradoxal e dialético como todo real pode ser, aliás, só pode ser.
Esses movimentos eternos de tantos paradoxos e dialéticas se misturam naquilo que Goethe chamava de turbilhão da modernidade. Porém, nesse turbilhão eu não vou me transformar em gente.
Lembra dessa passagem que Goethe descreve Fausto observando a gente que seguia a procissão do Cristo morto? Toda a sorte de gente que seguia o "útero podre" da sociedade moderna? É encantador.
Nesse movimento desconexo e ilógico onde se misturam pequenezes, frustrações, vazios e ecos tão ordenadores enquanto elementos constituintes e constituidores do senso comum. Paradoxal e dialético não, Imbecial mesmo!!! Como tudo que eu penso.
Será que é isso: culpa da modernidade? Algo exclusivamente dos nossos "dias modernos"? Se for assim, talvez eu encontre refúgio numa outra dimensão, num lugar situado além da aparência e do tempo. E novamente a solução seria o pensamento calado... Estou confuso sim! Tudo bem, tudo bem! Vou parar de ler aquele maldito livro!




