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terça-feira, 15 de abril de 2008

Escritor de palavras

Papel e caneta

Flerto com as palavras, tal qual a borboleta flerta com as flores. Gosto do jeito como cada palavra se beija, formando sons que insistem em fazer meus sentimentos e sensações dançarem juntos, num baile tão estranho quanto os pedaços de história que se eternizam em papel e tinta.

... Em papel-tinta-monitor-teclado-cabeça-pensamento.

As palavras, quando escritas, servem para perpetuar meus momentos. Elas se abrem em flores, para as já comentadas borboletas. E da combinação de algumas letras, eu vou fazendo uma história; vou fazendo uma vida.

As palavras são o que tenho de mais parecido com aqueles olhos que tenho por dentro, e que me vêem sofrer quanto tento, sofregamente, por na tela fria de meu computador tudo aquilo que eu penso; tudo aquilo que eu quero; tudo aquilo que eu sou.

A Clarice que o diga... Dizer o indizível; traduzir uma festa de emoções, sensações e percepções em palavras.

Ah, a Clarice...

Eu, com as palavras, descrevo gestos e atitudes. Essas me fazem perder o fôlego, tatear e esquecer-se do instante anterior.

É como um querer louco, que me inebria os sentidos, desafiando minha razão. É como um encontro, uma ansiedade esperada, uma explosão de emoções. É a palavra, farfalhando textos, sensações e sentimentos.

Ela adentra meu olhar curioso, saliva em minha boca, e consegue, por um instante, tocar o meu sentido – com meus próprios dedos.

O que eu escrevo me é, sempre, comestível. Cada palavra me é sorvida como um bálsamo; banhado pela luz difusa do fim de tarde, que insiste em invadir minhas mãos e pensamentos.

Sem pedir licença, igualzinho você, leitor.

domingo, 30 de março de 2008

Transcendendo os limites da compreensão humana: Frida Kahlo

Como alguém pôde suportar tantos açoites no corpo e na alma, e transpor tais dores para seus pincéis e telas com uma firmeza invejável?

Falo de Frida Kahlo, que, movida pelo amor e pela dor, retratava em suas telas a própria vida.

As obras de Frida são a expressão máxima da subjetividade intraduzível e inquantitável. Amor, agonia, tristeza e beleza caótica norteiam os seus traços.

A forma com que Frida soube expressar seus sentimentos, em suas pinturas, é maravilhosa, sensível e feminina. Sim, uma bela e muito forte alma feminina: linda e sensual.

Frida sofreu ao longo de toda sua vida, com dores do corpo e da alma; conseguindo transformar esse sofrimento em arte. Uma arte impactante e por vezes chocante, que luta contra tudo e todos ao mesmo tempo, e ainda assim pede carinho e atenção.

O primeiro contato que tive com a pintura de Frida, nem lembro quando, foi através de um cartão postal com a pintura de uma mulher chorando placidamente, e a sua coluna vertebral aos pedaços.

Nesta obra, Frida demonstra uma dor inquietante, através de pequenos alfinetes em sua pele; onde, no meio de seu corpo, há uma coluna, em estilo grego, quebrada; representando o seu próprio estado físico e emocional.

Fiquei chocado. Sua obra me passou um misto de dor e medo. Uma mistura de reações tomou o meu corpo: repulsa, espanto, náusea, enlevo, horror, e admiração; a ponto de eu ficar pensando nela por dias e dias.

Essa obra me causou certas sensações devido ao sofrimento tão evidente, e a sua tristeza tão elevada. Hoje creio que, na época, o que me perturbou foi o fato de Frida encarar e retratar suas dores e seus amores com tanta coragem - e de uma forma tão explícita.

Sua capacidade de transformar tanto sofrimento em arte é impressionante. Principalmente na explosão de cores em que se traduziu esse sofrimento. Frida transcendia os limites da compreensão humana.

Frida Kahlo é uma dessas pessoas cuja grandeza nos mostra o quanto o ser humano é capaz de se superar e transformar a vida, transformar o mundo, mudar os conceitos e os pré-conceitos, escrever sua história e não ser vítima, apesar de todos os obstáculos.

Alem de sua imagem com perspectivas corretas e sombreamento, Frida pintava suas angustias e anseios. Como ela mesma nos diz em seu diário: "Estou escrevendo com meus olhos", e é aí justamente que está a sua excelência.

Ela escreveu e pintou a sua vida, não houve separação da pessoa/artista, sua obra é seu espelho.

A vida de Frida Kahlo com certeza foi a sua mais fantástica obra. A pintura foi simplesmente um instrumento.

Profunda, libertária, bela, suprema, dilacerante, passional, mulher: esta é Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón. Apaixonada pelas cores, pelo prazer - e pela dor, por que não? - pela vida.

quarta-feira, 26 de março de 2008

A estupidificada e silente juventude estudantil maranhense

Protesto estudantil
Fisgado pelo texto Estudantes vão "desinfetar" Palácio dos Leões com creolina por causa da visita de Hugo Chávez ao MA, no blog do jornalista Décio Sá, aproveito aqui para manifestar o que penso sobre certas linhas de raciocínio das lideranças e entidades de movimentos de juventude e estudantil do Maranhão:

Nossa atual geração de militantes e dirigentes de movimentos de juventude e estudantis, em especial a de São Luís, transformou-nos numa província sob o império da idiotia.

Opaca e intelectualmente espúria, a juventude estudantil maranhense, palhaça como é, promete usar, como sempre, o famigerado nariz de palhaço, em forma de protesto contra vinda do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, ao estado do Maranhão.

Claro que não estou fazendo continência à vinda desse destruidor de país - que é o presidente venezuelano - ao estado. Longe disso. Mas acho, no mínimo, despropositado o motivo que levou o movimento estudantil a querer entrar em protesto.

Absorto em sua cegueira mental, o governador Jackson Lago praticará mais uma chanchada contra a educação maranhense, implantando, no Maranhão, o programa ‘Yo si Puedo’, do governo Chávez; e essa casta amoral, que hoje está sob os auspícios do próprio Governo, prefere continuar na volúpia doentia de desonrar os palhaços, coitados; e assistir a esse adultério lamentável de País e Estado.

O ‘Yo si Puedo’ é uma versão cubana do tele-ensino; implantado no governo Roseana Sarney, e apropriado pela Venezuela. Aliás, quem não se lembra do tele-ensino sendo duramente criticado e usado como discurso de campanha, por Jackson Lago?

Creio que nossa juventude estudantil não lembra! Na verdade, ela não sabe é de nada... A verdade é que esse bando de malandros, quando resolve se levantar em protesto, sempre é por razões nada contundentes.

Longe de mim a intenção de sugerir que o ‘movimento revolucionário’ dos estudantes esteja investindo contra moinhos de vento. Porém, a formação de opinião desses movimentos só pode ser chamada de burrice.

Esse é o signo de liberdade do Maranhão: uma classe estudantil estupidificada e silente.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Ultrapassando o campo da delicadeza poética: Florbela Espanca

Fui apresentado à Florbela num momento trágico, e, diante de sua amargura contida, de sua dor tão elegantemente revelada, senti-me de frente a um espelho.

A poesia de Florbela Espanca é de uma beleza sublime; o que me provocou um contentamento dual, pela sua simplicidade na escolha das palavras e pela clareza na transmissão do que lhe era sentido. Carne e alma entraram em regozijo.

Mulher de terrível encanto; seus poemas são extremamente sensíveis, chegando até ao erotismo. Aliás, seu erotismo é de uma espontaneidade e beleza incomparável.

Sinto em seus versos a inquietação de uma alma que não cabe nas limitações do corpo, tampouco nas convenções do mundo. Um corpo que tem sede e desejos que nem ela mesma conseguiu definir ou calcular-lhes a intensidade; que vive num constante delírio por conhecer-se, numa infinita angústia de se ser.

Em explosões de melancolia, os poemas de Florbela suscitam uma propensão para a angústia existencial.

Infelizmente, há um pensamento despótico, sectário e dogmático que se perpetua, que é a teima em rotular a poesia de Florbela Espanca como ‘imoral’. O que acho totalmente errado!

O pai tem uma filha que só perfilha depois de morta, por imposição de seus amantes literários, e a imoral é ela? Francamente...

Como seus poemas, Florbela era intensa. E essa intensidade, mais do que qualquer outro motivo, pode tê-la levado à depressão.

Existe uma versão hipotética de que a causa da melancolia de Florbela era o amor incestuoso pelo irmão; variante a qual não entrarei em detalhes.

Correto é afirma que, em seus poemas, ela descreve a dor que sentia; a agonia; a pressão de um mundo onde ela era avançada para o seu tempo.

O que é de mais admirável em Florbela não está em sua postura diante da sociedade da época. Existiram muitas mulheres como ela naquele tempo - e em outros tempos. O que mais impressiona em Florbela é a qualidade de seus sonetos.

Florbela conflitava em uma busca interior por ela mesma; pela própria essência e de como ela se surpreendia por se achar em si mesma como um ser infinito, complexo e contraditório.

A verdade é que não há nada mais justo do que deixar a própria Florbela falar por si:

“Não tenho nenhum intuito especial ao escrever estas linhas; não viso nenhum objetivo; não tenho em vista nenhum fim. Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo, uma alma, se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silencio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser.

E realize o que eu não pude: conhecer-me. ”

sábado, 22 de março de 2008

Vai um cordel aí?

Nordestino orgulhoso que sou, admito que me seja extremamente bom ostentar, neste blog, o mundo do encantamento da quimera; da valentia; do matuto; do cangaço; do religioso; e do que não poderia faltar: o gracejo.

E é com esse mesmo pensamento que coloco a minha vida lado a lado com a sua, leitor, em um mesmo cordão: a LITERATURA DE CORDEL.

Poesia de mestria única, a literatura de cordel traz muito da real importância nordestina. Podendo arrebatar aos nossos corações a esperança do retirante; a estreiteza de um agricultor na seca; o singular do ambiente sertanejo; o poeta como representante do povo; ou, e principalmente, a alegria de ser alguém que enxerga nas próprias mãos calejadas a prova do trabalho honesto que, se muitas vezes não sustenta o corpo, sossega a alma.

O povo atribui a literatura de cordel apenas como folheto, visto que a origem de seu nome de dá pelo fato do mesmo ser vendido em folhetos rústicos, presos por pregadores de roupa, e pendurados em barbantes (cordéis).

Porém, essa atribuição é totalmente equivocada. A literatura de cordel não pode ser explicada apenas como uma poesia narrativa impressa; eis que ela é, acima de tudo, jornalismo POPULAR, onde elementos modernos se misturam a tradicionais.

Então, independente de você ser um bom escritor ou não; nordestino ou não; amante de cordéis ou não; você faz parte do povo, logo, essa arte também é sua.

E se de literatura de cordel estamos falando, não poderei eu deixar de recitar, em voz alta e clara, a forma melodiosa e cadenciada que ela é.

Com vocês, “Ai se Sesse”, do poeta Zé da Luz, por Cordel do Fogo Encantando:

"A gente vem lá do sertão de Pernambuco, cidade chamada Arcoverde. O poeta Zé da Luz, do início do século, escreveu uma poesia, porque disseram pra ele que pra falar de amor era necessário um português correto e tal. Aí Zé da Luz escreveu uma poesia chamada "Ai se Sesse", que diz assim:

Se um dia nós se gostasse
Se um dia nós se queresse
Se nós dois se empareasse
Se juntim nós dois vivesse
Se juntim nós dois morasse
Se juntim nós dois drumisse
Se juntim nós dois morresse
Se pro céu nós assubisse mas porém se acontecesse
DeSão Pedro não abrisse a porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu me arriminasse
E tu com eu insintisse
Prá que eu me arressôvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nós dois ficasse
Tarvês que nós dois caísse
E o céu furado arriasse e as virgi todas fugisse..."